31.10.2005 2:34 PM
Augusto Cardoso Fernandes fala das Para-Olimpíadas
"Quando a gente quer, a gente sempre arruma tempo..."
Esta frase foi dita por Augusto Cardoso Fernandes, que com certeza está fazendo sua parte para fazer do tênis um esporte tão praticado quanto o futebol.
No dia 24 de setembro de 2004, as 08:00 horas da manha, lá estava ele, na Escola Iaiá Câmara, divulgando as para-olimpíadas.
Depois de falar com os alunos, Augusto fez uma demonstração de um jogo de tênis, juntamente com seu professor José Mário.
Confira as fotos.
Augusto fala aos alunos:
Depois que eu sofri um acidente, eu dei continuidade ao esporte. Eu acho que o esporte é a base e a formação para que a gente possa ter alguma coisa na vida. O esporte nos ensina a ter disciplina, educação, organização. O esporte nos permite ter uma visão muito grande do futuro.
Nós vamos fazer um treinamento, uma demonstração de tênis, porque está acontecendo as Para-Olimpíadas, que acontecem após as Olimpíadas. É um evento que infelizmente não era muito divulgado, mas o Brasil sempre obteve muito mais medalhas nas Para-Olimpíadas do que nas Olimpíadas e hoje vocês vão ter oportunidade de ver uma pessoa em cadeira de rodas jogando tênis.
É muito interessante isso, eu mesmo não acreditava que era possível, e vocês vão ver que vai ser possível. A gente vai doar para a escola duas raquetes de tênis e bolinhas, então vocês vão ter oportunidade de estar jogando o tênis nas quadras da própria escola, de praticar o tênis e futuramente, quem sabe, começar a participar de torneios. É até possível que daqui saia um profissional na área do esporte.
É isso aí, não vou falar muito não, porque o bom é estar na quadra.
Obrigado, tudo de bom.
CONVERSANDO COM AUGUSTO.
Como surgiu esta idéia de fazer esta apresentação para os alunos da escola Iaiá Câmara?
Esta idéia eu tive depois de ter dado uma bronca nos meninos. Eles estavam tentando derrubar manga de uma árvore e acabaram acertando meu carro. No dia seguinte, não sei se foram os mesmos meninos ou outros, se sensibilizaram por eu estar colocando a cadeira de rodas sozinho no carro e me ofereceram ajuda. Foi quando eu imaginei que se a gente pudesse fazer alguma coisa a mais por estas crianças estaríamos incentivando elas a pegar um caminho correto.
Eu tive a idéia de através do esporte estar colaborando, pois é isso que eu pratico. Foi quando eu chamei o professor de educação física, perguntei se eles tinham alguns equipamentos de tênis na Escola. Ele disse que não. Então, eu achei por obrigação estar doando alguns materiais para que eles pudessem fazer a iniciação esportiva voltada para o tênis, já que na escola joga-se somente o futebol.
Essa foi a primeira idéia, e eu acho que nós conseguimos alcançar o objetivo. Lógico que demos o material.
No tênis, ao contrário das raquetes, as bolinhas estragam logo, então temos que ficar preocupados em estar repondo essas bolinhas. Este é o nosso papel.
Você tem a intenção de fazer este trabalho em outras Escolas ?
Nunca pensei nisso. Primeiramente eu queria até aproveitar o momento das Para-Olimpíadas para estar divulgando o esporte.
É lógico que alguém possa ter o interesse e estar fazendo o mesmo, mas não necessariamente teria de ser eu. Quem sabe até a Federação, com a preocupação de estar divulgando o esporte, poderia organizar uma série de visitas.
É uma idéia interessante, já que os Estados Unidos são uma potência esportiva, graças as Universidades e as Escolas, que incentivam muito o esporte. Porque não ter aqui no Brasil essa mesma preocupação? Principalmente porque hoje a quantidade de equipamentos e recursos que a Escola possui é grande, o que me surpreendeu bastante. A escola tem internet (esta Escola é Municipal ), tem DVD, televisão de 29' , vídeo cassete. Então, se tem tudo isso, ficou mais fácil ainda a gente estar contribuindo para que estas crianças tenham uma afinidade esportiva.
Augusto, como você se interessou por tênis?
Foi uma apresentação que eu vi em Brasília. Eu jogava basquete na época, então fui a Brasília ver uma exibição de tênis em cadeira de rodas, por curiosidade, e acabei acreditando que poderia dar certo.
O que você acha que falta para o tenista goiano, principalmente para o tenista de cadeira de rodas?
Precisa de uma pessoa que assuma a responsabilidade de fazer funcionar, através de uma associação. Eu acho que o caminho hoje seria este. Já tentei, já fiz até uma clínica com o pessoal da associação, mostrando para eles que é possível. Local existe, falta só conseguir recursos, pois os deficientes não têm recursos financeiros para conseguir cadeiras adaptadas, comprar uma raquete, bolinhas, pagar aulas. Dessa forma acho que essa seria a função da associação, a de conseguir recursos para os materiais, pagar professor, e assim incentivar o pessoal. Já fazem isso com o basquete.
Você parece ter muito boa vontade, mas parece que não dispõe de tempo. Isso é verdade?
Tempo a gente cria, mas não é minha função assumir essa responsabilidade. Já tem tempo que a etapa do brasileiro é por minha conta. Posso colaborar com a difusão deste esporte adaptado aqui em Goiânia. "Mas a bola não é minha não".
E sobre o Centro de Excelência - Tênis, você tem algo a dizer?
O Centro de Excelência precisa contemplar todas as adaptações para os deficientes. Seria uma perda de tempo a gente fazer um centro com uma magnitude daquela, sem dar condições para as pessoas que tem algumas dificuldades de se locomover ali. As áreas de estacionamento, vestiário, alojamento, quadras, refeitório, tudo tem que ser de acordo com as normas hoje vigentes. Eu sei que existe a preocupação, apesar do projeto ainda não ter sido visto com esses olhos. Então, tem que ver tudo isso.
Você tem preparador físico, quem é seu professor de tênis?
Não tenho preparador físico, pois eu faço fisioterapia e academia. Dessa forma estou bem assessorado. Tenho uns dos melhores professores de tênis de Goiânia, que é o José Mário Ferreira.
Você tem patrocínio?
Não, porque quem tem patrocínio tem que ter um objetivo para mostrar para o patrocinador. Hoje eu não tenho compromisso com ranking na Confederação. Eu acho que meu futuro está fora do país, porque na categoria que eu jogo não existem praticantes suficientes aqui no Brasil. Se eu conseguisse me classificar nessa categoria, iria em busca do patrocínio. Até então jogo por amor.
Quais são seus planos?
Ir para Pequim. Para isso vou ter que trabalhar, não só dentro de quadra, como também fora de quadra. Comecei tentando na Austrália, tentando vaga para Atenas. E assim como em qualquer atividade, existe a questão política. A política pode ser benéfica ou maléfica. No meu caso existe a falta de apoio.
Assim como no meu caso, existe classificação para jogadores Israelenses, Italianos, Japoneses. Então o primeiro caminho seria unir forças, porque ou jogamos unidos ou os outros que estão nas mesmas condições também não jogam. Isso porque existem os Canadenses, os Holandeses, Americanos, que são fortes. Os classificadores são dessas nacionalidades, então, de uma maneira ou de outra, a gente fica prejudicado. Não tenho nenhuma outra chance, a não ser nesta, pois a minha lesão não permite que eu tenha um preparo físico, até mesmo técnico, para poder concorrer com esse caras.
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