31.10.2005 2:34 PM
Um grande exemplo a ser seguido!
Otavio Maia
Enviado a Buenos Aires
Uma sessão de esquerdas cruzadas, outra de direitas diagonais e uma dose reforçada de voleios e saques. Sob o sol de 30 graus do meio-dia na capital argentina, a jovem Florencia Molinero, 17 anos, deixa a quadra do Buenos Aires Lawn Tennis Club de camisa encharcada.
"Flor" é uma das maiores promessas do tênis feminino argentino. Nesta semana, aparece na 469ª colocação do ranking da WTA. Resultados respeitáveis para uma juvenil, é certo, mas nada que chame a atenção se comparado com a precocidade das grandes estrelas do circuito. O que aquiimporta é que a adolescente é mais um produto lapidado pela "Escola Nacional de Tênis Argentino", exemplo de cómo uma Confederação pode ajudar diretamente na formação dos atletas.
A instituição é parte da Associação Argentina de Tênis e incentiva o esporte local em todas as categorias juniores. Florencia, por exemplo, treina diariamente com a equipe da Escola e conta com preparador físico, avaliação médica, psicólogo - tudo gratuito -, há dois anos. Para se beneficiar da estrutura oferecida pela Associação, se mudou de Rafaela, 500 km distante da capital argentina.
"A importância da Escola para mim? Toda, eles me ajudam com tudo", disse a garota. Além de aproveitar o treinamento oferecido, ela fez parte da equipe argentina nas categorias menores que viajou o mundo. "Fui para a Europa, EUA, joguei Roland Garros, Wimbledon, tudo por conta da Escola."
A criação de um centro nacional de formação de talentos certamente não é a única explicação do sucesso do tênis argentino, mas um olhar mais aprofundado sobre o modelo do país vizinho evidencia a importância do apoio continuado de uma Confederação e de ídolos do passado à base do esporte.
A Escola Nacional surgiu na década de 70 e formou um dos maiores jogadores do país, Jose-Luis Clerc, ex-número 4 do ranking internacional. Posteriormente extinta, foi refundada em 1996 e ajudou a lapidar nomes como David Nalbandian, campeão de uma Masters Cup, e Guillermo Coria, vice de Roland Garros 2004.
"Coria e Nalbandan entre os 15 e 18 anos nunca pagaram uma excursão, sempre que foram ao Cosat, aos EUA e Europa tudo foi pago pela Escola; inclusive Coria também treinava aqui diariamente e nunca pagou treinador ou preparador físico", conta o ex-capitão argentino na Copa Davis e atual diretor da Escola Nacional, Gustavo Luza. "Já Nalbandian seguiu vivendo em Córdoba, mas viajava com a Escola Nacional."
Luza, que atua na instituição desde 1997, sabe que a geração de Nalbandian e Coria foi uma exceção, mas diz que talentos continuam sendo formados sob olhar da Associação. "Juan Martin del Potro (91º do mundo aos 18) esteve quase dois anos viajando conosco e mais de um ano vivendo em Buenos Aires e treinando gratuitamente. Também acabam de sair jogadores como Emiliano Massa (campeão de duplas em Roland Garros juniores), Leonardo Mayer e Florencia Molinero."
O diretor explica que a Escola Nacional, embora só conte com as quatro quadras da sede na capital, alcança todas as regiões do país. "Fazemos oito ´campos´ no interior do país. São dois dias de avaliações técnicas e fisicas; juntamos os melhores dessa região, levamos um preparador fisico e dois treinadores da escola. Não há nenhum custo para a federação da região."
"Também temos campos em Buenos Aires, onde convocamos os dez melhores do país e fazemos avaliações físicas, técnicas, médicas e pagamos o traslado; comem e dormem, tudo pago pela Escola", conta. "São duas vezes por ano cada categoria. Em cada um dos torneios mais importantes sempre há um treinador da Escola, assim vemos os garotos no treino e também em competição."
Para o dirigente, centralizar os talentos supre uma carência específica. "É importante juntar os melhores para que possam treinar entre eles. Muitos deles são do interior, nem sempre nas suas regiões eles têm a chance de treinar com gente do seu nível", argumenta.
Luza conta que há grande importância em reunir informações sobre o nível dos atletas do país para formar as equipes que vão representar a Argentina nos eventos internacionais. O ranking, diz, não é critério único; são levados em consideração também "o comportamento e a projeção".
"Neste ano no Cosat se gastou mais de US$ 40 mil para apoiar 32 jogadores de diferentes formas. Na Europa levamos quatro, no Orange Bowl vamos com três. Há diferentes jeitos de se apoiar jogadores de acordo com o nivel de cada um", explica o ex-número 319 do mundo.
Manter uma Escola Nacional custa caro, mas nem tudo sai dos cofres da Associação. "A menor parte vem do Estado, um subsídio que o governo federal entrega a todos os esportes. Outra porcentagem vem do apoio de Gabriela Sabatini. Neste ano para salários de todos os profissionais, mais viagens etc, se gastou cerca de US$ 200 mil com a Escola.", diz Luza. Nos bastidores, fala-se que a contribuição de Sabatini é de US$ 100 mil anuais
(extraída do site do UOL. O título original é"Bienvenido a la Escuela Nacional Argentina")
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